Em Abril de 1974 contava dois anos e cinco dias. Aprendeu numa filarmónica quase tudo quanto sabe. Uma vez, no cemitério da sua aldeia, tocou o silêncio para os mortos, acompanhado pelo choro dos vivos.
Sendo profundo conhecedor da solidão, dedicou-se ao estudo da respiração contínua e aprendeu a controlar a velocidade do som. Conseguiu permanecer em silêncio (e sem fumar) mais de 4'33'', batendo o anterior record.
Tendo livrado à tropa, punha-se a tocar clarim extra-muros, anunciando a alvorada a várias horas e obtendo como resposta coros de laudes e matinas. O toque do sentido soava-lhe sempre diferente e não conseguindo lembrar-se de nenhum outro, habituou-se a inventar novos toques de ordem. Decompôs ainda vários hinos nacionais, uma internacional e uma missa brevis; até que caíu em desgraça, ao plagiar acidentalmente o toque de chamada para o rancho, provocando a fragilidade das forças armadas que salivavam abundantemente.
Para o seu declínio terá contribuído o facto que se segue: certo dia foi apanhado em flagrante a tirar o compasso a uma galinha, animal funky por excelência.
Vendo-se num espelho estilhaçado em milhentos pedaços de experiência fragmentária, a sua obra revela ter-se dedicado ferozmente ao diletantismo. Cada vez mais obrigado à especialização tecnocrata neo-liberal cada vez mais imposta pela sociedade cada vez mais tecnocrata e neo-liberal, especializa-se cada vez mais na sua própria diletância. Acusado de edonismo, passa a tocar descalço, sendo avistado pela última vez para os lados da Macedónia.
Enquanto trompetista, vê em Boris Vian a sua maior influência. E espera secretamente vir a ser eleito uma das sete trombetas do Apocalipse.